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Uma mudança de rumo no trabalho criativo

Um experimento com IA, identidade visual e o que muda no trabalho criativo quando gerar possibilidades deixa de ser a parte difícil

Todos sabemos dos avanços que a IA teve nos últimos tempos. E devo dizer que já estamos meio cansados das novidades e das mesmas conversas de sempre sobre IA.

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Ultimamente tenho usado IA muito mais do que gostaria de admitir. E acho que o que me interessa agora já nem é descobrir mais uma coisa que ela consegue fazer. É perceber como encaixá-la no meu processo sem transformar tudo numa sequência de prompts.

Como designer e engenheiro de software, ouço constantemente que a IA vai roubar o meu trabalho. Para ser sincero, não sei. Há dias em que acho que sim, há outros em que olho para o meu próprio trabalho e penso que a conversa é muito mais complicada do que isso.

Recentemente comecei a usá-la de uma forma meio estranha:

Descrevo um conceito ou encontro uma referência visual de que gosto, levo-a para o ChatGPT, explico o que estou a tentar construir e começo a desenvolver a ideia por ali. A IA gera uma proposta, eu critico, mudo a direção, junto outras referências, volto a gerar. Quando encontro alguma coisa interessante, tento reconstruir e melhorar o resultado no Figma.

Sim, é uma forma um pouco estranha de trabalhar.

O último experimento que fiz assim foi com o Midas.

Midas é um estúdio independente de arte, design e tecnologia. A ideia é criar algo entre um estúdio tradicional e um pequeno laboratório criativo. Ainda não sei até onde vou levar isso, por enquanto, é mais um espaço para fazer coisas e descobrir no processo.

E foi justamente a identidade do Midas que resolvi desenvolver com IA. Eu sabia mais ou menos o que queria: algo simples, editorial, artístico, com identidade própria e suficientemente flexível para existir em contextos completamente diferentes.

Claro que as primeiras ideias que o GPT me gerou foram uma bosta.

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Símbolos geométricos, monogramas, formas abstratas. Coisas que não estavam necessariamente “mal desenhadas”, mas que poderiam pertencer a outras cinquenta marcas. Tentei novamente.

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Melhorou visualmente, mas continuava sem existir uma ideia ali que eu sentisse que pertencia ao Midas. E acho que foi aqui que aconteceu a parte mais interessante de todo o processo. Foi aí que comecei a perceber que talvez o meu trabalho estivesse a mudar um pouco. Não era só saber escrever um prompt melhor. Era olhar para uma imagem e dizer: não. Isto está bonito, mas não é isto.

E depois tentar perceber o que estava errado. Trocar uma referência, tirar alguma coisa, experimentar outra, voltar atrás. Às vezes sem saber muito bem o que estava à procura até aparecer alguma coisa que me fizesse parar.

Foi então que parei de pedir ao GPT para “criar um logo para o Midas” e comecei a pensar no próprio nome: Midas.

A história do rei, o toque, a ideia de que alguma coisa entra em contacto com ele e muda de estado: Transformação.

Eu não precisava de um símbolo abstrato que significasse criatividade, já havia uma imagem bastante forte dentro do próprio conceito: uma mão.

Fiz uma fotografia da minha mão a apontar e procurei algumas referências que se aproximavam da linguagem editorial que imaginava.

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Pedi então à IA para trabalhar a partir disso:

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Então fui adicionando referências, gravuras antigas, carimbos, publicações, selos, tipografia editorial, impressão desgastada.

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Ainda não estava convencido, a mão parecia demasiado genérica, quase uma ilustração vintage encontrada num arquivo qualquer. O círculo parecia um badge e faltava informação, tensão, imperfeição.

E fui percebendo outra coisa: as referências começaram a ser mais importantes do que os prompts.

Em vez de tentar descrever perfeitamente uma estética em cinquenta palavras, conseguia mostrar: “é mais isto”, “menos aquilo”, “gosto desta textura”, “quero esta densidade”, “a mão daqui, mas a composição dali”.

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A conversa começou a parecer menos uma ordem dada a uma máquina e mais um processo de direção. Até chegarmos aqui:

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Uma mão aponta para o limite do círculo. No instante em que o dedo toca nele, surge uma pequena explosão, literalmente o toque de Midas.

À volta estão MIDAS e três palavras que resumem o processo do estúdio: Research. Design. Build.

Não acho que a IA tenha “criado a identidade do Midas”, mas também seria mentira dizer que fui eu quem desenhou cada pixel daquela imagem. Foi uma coisa mais estranha no meio:

Eu trouxe o nome, o significado, as referências, as críticas e as decisões. A IA conseguia materializar possibilidades muito mais depressa do que eu conseguiria sozinho. E cada resultado obrigava-me a decidir: isto é Midas? Isto não é? Porquê?

Curiosamente, quanto mais capacidade a ferramenta tinha de produzir imagens, mais importante se tornava saber escolher, e talvez seja essa a parte que mais me interessa neste momento.

Durante muito tempo associámos a execução à capacidade criativa. Quem conseguia desenhar melhor, modelar melhor, programar melhor ou dominar determinada ferramenta tinha uma vantagem enorme naquilo que conseguia materializar.

Agora estamos a começar a separar um pouco essas duas coisas. Produzir uma imagem está a ficar absurdamente fácil, ter uma boa razão para aquela imagem existir continua difícil.

Por isso, já não penso tanto em “a IA consegue fazer o trabalho de um designer?”

O que me deixa mais curioso é outra coisa:

O que acontece ao trabalho de um designer quando produzir deixa de ser a parte mais difícil?

Eu ainda não sei.

Pelo menos neste projeto, não senti que a IA estivesse a fazer o meu trabalho por mim. Senti que estava a fazer uma parte dele que normalmente me demoraria muito mais tempo.

Não sei se no futuro vamos chamar isso de designer, diretor criativo, engenheiro, diretor de IA ou simplesmente alguém a trabalhar com as ferramentas disponíveis. Também não sei se a IA vai realmente tornar-se “criativa”. Talvez sim, seria pretensioso apostar que não.

Por enquanto, prefiro não tentar prever nada, estou mais interessado em descobrir o que consigo fazer com ela.

O problema é que cheguei finalmente a um logo de que gosto... E agora tenho de descobrir como diabos vou reconstruir essa mão no Figma.

Se alguém souber, por favor, avise-me.